quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O silêncio da mídia durante o julgamento do caso New Hit

Não sei se vocês se recordam, em dezembro de 2012 chegou até os nossos telejornais mais assistidos a notícia de que a uma mulher indiana teria sido estuprada coletivamente dentro de um ônibus, na Índia. Ora, estupros acontecem todos os dias e não são noticiados. Porque esse caso foi diferente? Porque ele foi de tal brutalidade que expôs a ferida aberta de um país. O choque, a indignação foi tão grande que atravessou o oceano. Chegou até nós. Nós, o povo brasileiro. Nós tivemos empatia por aquela mulher. Ela lá, nós aqui. Criticamos o machismo na Índia. Nós falamos mal de um cultura que não conhecemos. Por indignação, justa, compreensível. Esse crime, e sua repercussão dentro e fora da Índia mobilizou o povo a pressionar o governo para fazer mais pelas mulheres.

Mas nós, que tanto criticamos a Índia por não proteger suas mulheres, aqui estamos, fazendo bem pouco por duas meninas que tiveram o mesmo destino da jovem indiana, o que mostra que o nosso gigante acordou, mas é machista. Ontem, teve reinício o julgamento de um crime que aconteceu em Ruy Barbosa, na Bahia. Um crime brutal. Imagine só que duas adolescentes foram até o ônibus de uma banda que elas admiravam e foram estupradas seguidamente por OITO homens, segundo laudo pericial, enquanto apanhavam e eram agredidas verbalmente.


Eu me lembro de quando eu era adolescente. As minhas bandas preferidas faziam parte do meu dia-a-dia. Eu cantava suas canções, eu as aplicava nas situações do meu cotidiano. Se eu conhecesse os meus ídolos e eles me chamassem para dentro do ônibus da banda, eu iria feliz e contente, esperando fazer algumas memórias felizes. Algumas recordações para aproximar a banda ainda mais de mim. Eu jamais desconfiaria que poderia ser vítima do HORROR que essas meninas sofreram. 

Elas descobriram da forma mais dilacerante a força do patriarcado sobre nós. A crueldade da cultura do estupro. Uma cultura que diz que duas adolescentes que entram em um ônibus de banda, só poderiam estar PEDINDO pelo estupro. É sintomático da cultura do estupro que praticamente apenas feministas (Especialmente a página "Repúdio ao New Hit: Acusados de estupro" e o "Núcleo Negra Zeferina"), e alguns noticiários locais estejam falando sobre isso. Os grandes portais de notícia, os maiores telejornais do Brasil, os trending topics do twitter (sim, eles importam), a mídia independente (alow, mídia ninja???), os anonymous, não deram muita atenção. Ninguém mais (seja de esquerda ou de direita) se importa. Ninguém mais liga para as nossas meninas, nem para as nossas mulheres. 

O que é preciso para que uma mulher agredida seja lembrada pela mídia? que ela seja famosa. Hoje temos até lei com nome de atriz da globo, a lei Carolina Dieckman. Tudo muito bonito (sério, essa lei é um avanço), mas precisa ser atriz da globo para que possamos debater o machismo, a cultura do estupro, a violência contra a mulher? Ou quem sabe ser picada e oferecida aos cães por um jogador de futebol famoso (Eliza Samúdio)? Ou ainda ser morta em rede nacional por um ex-namorado (Eloá Pimentel)? Há um circo montado nesses casos, onde se leva ao outro extremo: o sensacionalismo, que invade a vida privada da vítima, que não se coloca no lugar dela e nem lhe dá voz, o jornalismo que quer transformar suas vidas num filme de mau gosto, um entretenimento macabro. Para as muitas vítimas anônimas só resta o silêncio.

É vergonhoso e escandaloso o silêncio do nosso país sobre esse caso. A todo jornalista eu só gostaria de dizer que poderia ser a sua filha. Poderia ser a filha, a irmã, a mãe, a avó, a amiga de qualquer uma de nós. Pode ser qualquer uma de nós. Eu acho patético precisar repetir essa frase a cada nova violência contra a mulher para que sintam empatia por nós e nos ouçam. É lamentável que uma notícia dessas se torne APENAS uma nota sem profundidade que vai embora junto com um monte de notícias vazias sobre a musa da vez, sobre a celulite de alguém, sobre o trânsito, sobre qualquer coisa. 

Esse é o tipo de notícia que deveria parar o nosso dia: Acompanhar o julgamento da banda New Hit. O silêncio da mídia é também o silêncio da vítima, que não tem espaço no mundo para que ouçam sua voz. Não é à toa que quando acontece um crime de estupro se entreviste o estuprador, a família dele, a mãe, o pai, o delegado e todo mundo ao redor, menos a vítima. Não é à toa que o jornalismo sempre trate as vítimas de estupro como supostas vítimas, como mentirosas em potencial. E principalmente, nesse caso, não é à toa que as vítimas estão presas dentro de casa ou em abrigos, enquanto os estupradores estão soltos, fazendo shows, sendo patrocinados por marcas famosas. 

Mesmo que o New Hit saia condenado do tribunal, a cultura do estupro já foi perdoada. As pessoas e a mídia já viraram as costas para o assunto, já se esqueceram, normalizaram. Seguiram suas vidas como se nada demais houvesse acontecido.

P.S.: Essas jovens merecem toda a nossa admiração por, com tão pouca idade, terem decidido passar por cima desse gigante machista que é o nosso país. A coragem delas me inspira como feminista e como mulher a continuar acreditando que é possível virar a mesa e denunciar a cultura do estupro a cada vez que ela se apresenta.

P.S. 2: O julgamento foi suspenso e deverá retornar nos dias 17, 18 e 19 deste mês. Até lá espero que algo mude na cobertura midiática (se é que podemos chamar assim) do caso.

P.S. 3: Link sobre clichês machistas do jornalismo: "Como o jornalismo reflete e alimenta o machismo"

UPDATE: Será que não existe também um componente de preconceito regional? E se o mesmo caso acontecesse no sul/sudeste do país? A mídia também estaria calada? Eu acho que haveria maior possibilidade da mídia se manifestar.


2 comentários:

  1. Olá, Gizelli. Tudo bem?

    Sou editora da revista Confeitaria (www.confeitariamag.com) e adoraria republicar seu texto e demonstrar publicamente o nosso apoio. Você concorda?

    Se sim, por favor entre em contato no fabianesecches@gmail.com. Compartilho da sua indignação, que deveria ser a indignação de um país, e adoraria usar a voz da nossa revista, ainda que seja uma voz independente e modesta, para protestar contra absurdos assim.

    Beijos e parabéns pelo posicionamento!

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  2. Ótimo texto Gizelli, realmente é impressionante e vergonhoso. E para agravar a violência, uma delas era virgem, ou seja, sua primeira experiência sexual propriamente dita foi um estupro. De partir o coração...

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