sexta-feira, 3 de maio de 2013

Givenchy: O cheiro da morte - parte 2


O texto de hoje é uma sequência do post "Givenchy: O cheiro da morte". Depois de tê-lo escrito, algumas pessoas (movidas por um otimismo que eu não possuo) ainda questionavam qual era a real intenção da marca Givenchy ao criar um perfume inspirado por um feminicídio brutal. Alguns comentaristas acharam que era uma homenagem à Elizabeth Short. 

Pessoalmente eu não acredito mesmo que há qualquer traço de homenagem na propaganda do perfume. Veja, não há crítica ao assassinato em momento algum e muito menos vejo representada ali na personagem a figura de uma mulher dos anos 40, que teve uma vida particularmente diferente do habitual. O que vejo é uma idéia bem vazia de erotização do corpo, especialmente no momento em que ela se move sensualmente sobre uma base, ou quando continua olhando de forma vazia para o nada, gerando o famoso ar blasé. Na verdade esse tratamento da imagem me parece bastante desumanizador.

Porém, deixando todas as minhas impressões de lado, deixo que o próprio Ricardo Tisci, diretor criativo da Givenchy, se explique. O trecho abaixo foi retirado da Vogue Austrália, e traduzido livremente por mim.

V.A.: O nome Dahlia Noir evoca uma femme fatale muito misteriosa, quase perigosa. Qual foi a sua intenção?

Tisci: "Eu quis materializar na fragrância e em seu nome um anjo negro sedutor, uma heroina que emana uma suavidade obscura, uma ternura fatal."

V.A.: Dahlia Noir presta homenagem ao Romance escrito por James Ellroy "Dália Negra"?

Tisci: "A Dália Negra, no livro de James Ellroy, é sobretudo uma heroina. Na minha opinião, a estória é mais sobre paixão do que sobre crime. A paixão faz com que cada indivíduo alcance seu máximo, leva ao excessos. O ápice das emoções pode levá-los a cometer atos sob a influência da paixão."

Deixa eu ver se entendi: 

Então ele quis "materializar" na fragrância, cujo nome veio de um feminicídio brutal, um "anjo sedutor". Está explicada a objetificação sob a personagem na propaganda. E por fim, o que acho mais problemático, ele afirma que o caso Dália Negra é mais sobre paixão, do que sobre crime.

Muita calma nessa hora. 

Então um feminicídio brutal (Sim, vou repetir essas palavras algumas vezes, para deixar bem claro do que se trata) em que alguém resolveu partir o corpo de uma pessoa ao meio, fazer cortes em seus genitais, abrir um sorriso macabro do canto da boca até as orelhas dessa pessoa, jogar seu corpo nu, violentado e torturado em um terreno baldio... é mais sobre PAIXÃO do que sobre CRIME? Se isso não é glamurizar um feminicídio, não sei mais o que poderia ser. 

Vamos esclarecer uma coisa: feminicídio não é questão de "paixão", é questão de "poder". E não é um caso isolado. Feminicídio é um fenômeno complexo que ocorre em todo o mundo até hoje. Quem tiver alguma dúvida sobre o verdadeiro massacre de um gênero sobre outro, pode dar uma olhadinha no blog "quem o machismo matou hoje", que até março desse ano fazia uma contagem diária de mulheres que foram mortas por seus companheiros e viraram apenas mais uma pequena manchete de jornal. Chega de falar em "crime passional". Dizer que a culpa é da paixão é legitimar a violência. Não é paixão, é ódio, é misoginia e é demonstração de poder/posse. 

Acho que as empresas se esqueceram o significado de homenagem. Dessas homenagens e boas intenções, o inferno está lotado. Não é homenagem quando se glamuriza o feminicídio, está homenageando quem, queridão? O assassino "movido pela paixão", que nunca foi pego? Só se for. 


4 comentários:

  1. Li "O ápice das emoções pode levá-los a cometer atos sob a influência da paixão."

    Mas entendi: O ápice das emoções pode levá-los a cometer atos sob a influência da paixão, ou seja, a culpa foi dela por ser 'femme fatale' demais para a época!

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  2. Li algumas coisas na internet e vi que o assassinato não foi solucionado. Você diz feminicídio baseada nas torturas feitas com ela? Queria entender melhor.
    O texto está ótimo!

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  3. A morbidez e misoginia no mundo da moda não é novidade... é clara a relação da ditadura da magreza instaurada pelos designers de moda com estes assuntos. Eles exigem que as mulheres sacrifiquem a saúde e em alguns casos a vida por padrões inatingíveis... eu suspeito que tem muita gente doente trabalhando nesse mundinho!!

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  4. Eu queria entender melhor esse caso. porque me parece estranho que um ícone marcante de uma época seja algo tão apagado hj em dia a ponto de parecer só uma ficção, uma fantasia. Só que... Por motivos de sensibilidade tá impossível pesquisar sobre isso. Vou ficar sem saber mesmo. Pena.

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