quinta-feira, 9 de maio de 2013

Coleções assinadas em fast fashions: Democratizar a moda não é isso!


Há muito tempo eu já desejava escrever sobre as "coleções assinadas" das lojas de departamento, ultimamente chamadas de "fast fashion". Peguei o gancho da Ana, do blog "Hoje vou assim off", que fez um texto ótimo sobre o assunto que pode ser lido aqui.

Eu não sei quem começou essa moda, mas o fato é que no Brasil deu certo. As lojas de departamentos como C&A e Riachuelo têm se alternado em coleções assinadas por estilistas. Ótimo. Democratizar a moda é uma idéia verdadeiramente bonita. Porém, não é democratização quando:

- A roupa é fabricada na China: Como brilhantemente explicou a Ana, há roupas de coleção que são conhecidas por pessoas que frequentam o Ebay. Pessoas como eu, por exemplo, que bati o olho e pensei: "cara de pau!". A ética passou longe. Se a coleção é assinada, acreditamos que é porque existe autoralidade. Contudo, o que de fato existe é a exploração de uma classe de consumo que não tem poder aquisitivo alto o suficiente para comprar uma roupa de grife. Basicamente, estão vendendo o exclusivo, mas entregando para as pessoas a cópia da cópia, só que com uma etiqueta grifada.

Foto 1 - Asos, foto 2- C&A,
foto 3- Ebay (inclusive aproveitaram a foto da Asos)
- Mão-de-obra barata: Já comprei produtos chineses. Além dos que comprei conscientemente, hoje sei que praticamente tudo o que consumimos vem da China (e outros países asiáticos), de tênis a eletrônicos. Até participo de um grupo no facebook que compartilha dicas de produtos do ebay. Não me orgulho de comprar na China, mas está cada dia mais difícil e mais caro comprar roupas que me vistam aqui no Brasil. Não é só no ebay que a mão de obra é barata, já ouvi por mais de uma vez que os produtos vendidos em lojas de departamento, que são produzidos no Brasil, muitas vezes podem ser encontrados em lojas de fábrica (sem a etiqueta) a preços muito menores. Valorizar o trabalho dos costureiros é muito importante, mas infelizmente o que percebo é que isso só acontece se você for direto até a fonte. Se a gente não pode comprar em lojas de grife e compra em lojas de departamentos, ainda que a produção seja nacional, dificilmente o trabalho deles  estará sendo valorizado. Mesmo em lojas de grife eu tenho minhas dúvidas sobre a valorização do profissional, a impressão que tenho é que o lucro é ainda muito mais díspar, se comparado aos salários dos costureiros.

- Retira o mercado do pequeno lojista: Contrastando com esse modo de produção altamente excludente, estão @s costureir@s como a minha mãe. Ela é das boas, perfeccionista em níveis quase preocupantes e adora o que faz. Tanto, que ela fez uma faculdade de moda e tem um negócio próprio. Uma pequena loja que não gera lucro o suficiente para expandir. Não existe valorização para o pequeno empresário, para quem tem uma loja de bairro, para quem trabalha em casa. Não em um ambiente de consumo em que etiqueta é status. 

- As coleções não contemplam tamanhos grandes: Como dizer que há democratização da moda quando as pessoas que já são consumidoras de lojas populares não conseguem encontrar sua numeração? Eu compro em lojas de departamento nem sempre por opção, mas porque lá eu consigo encontrar numeração que me sirva. Ou conseguia. A C&A e a Riachuelo lançaram coleções plus size uma delas assinada pela Preta Gil (gente, a Preta é estilista? Eu não sei) e a outra da marca Tool, respectivamente. Mas isso não basta, não basta nos colocar em uma arara no fundo da loja, nem lançar uma coleção por ano que contemple nossas medidas. Nós, mulheres gordas, desejamos fazer parte da grade padrão,  quem disse que nós temos "tamanho especial" ou que somos "plus size"? Somos normais. Eu rejeito esse rótulo (embora seja obrigada a usá-lo para conseguir comprar roupas). Sou gorda como outras são magras. E ninguém vende roupa para pessoas magras como se fosse "tamanho especial". Coleções assinadas e gordofóbicas não democratizam nada, só tornam ainda mais evidente a diferença no tratamento que é dispensado às pessoas obesas.

Eu sigo me perguntando: Se somos um nicho separado de todos, cadê a visibilidade dos estilistas "plus size"? Por que eles não tem notoriedade? Por que não sabemos seus nomes? Eu desejo o reconhecimento desses profissionais, desejo que eles estejam à frente da criação em redes de lojas de departamentos e em pequenas lojas de bairro. Que o seu trabalho seja difundido. Infelizmente, parece que eles, como nós que somos gordos, estão à margem na moda.

A gente vive analisando as contradições que existem entre vestir o que quiser/ o que couber/ o que tem um preço que pode ser pago/ o que é ético. E normalmente (eu não vou me excluir aqui), o que é ético costuma ficar em segundo plano. Democratizar passa por equilibrar todos esses fatores. Quando a gente precisa escolher um deles em detrimento dos outros, com certeza algo está errado.

Um comentário:

  1. Há algum tempo eu tenho pensado sobre isso, com sua influência. Deixei de comprar marcas que não vendem tamanhos grandes, repenso o modo como as coleções são oferecidas, da proposta de ineditismo e exclusividade de produtos produzidos em série. De repensar a manufatura da roupa e da necessidade de aquisição que me empurraram por anos goela abaixo.
    Eu nunca comprei nessas coleções especiais para Fast Fashion. Eu só procurei a coleção da Stella Mccartney para C&A e, comparando com a parceria que ela fez com a Adidas que eu já consumi, me frustrei (ainda que eu tenha visto peças de excelente qualidade, fruto de uma preocupação da estilista que é muito consciente). Haviam poucas peças, a numeração era escassa e o que eu gostei já não tinha mais do meu tamanho. E a minha frustração foi diferente de não ter do meu tamanho. Eles apenas tinham esgotado. Era Stella, era para poucas, uma produção pequena que me chamou para uma loja onde eu não consumo. Até aí nenhuma novidade.
    Não havia reparado na quantidade de mulheres que gostam de moda e que não foram contempladas. Agora eu reconheço meu privilégio de magra consumista.
    Mas, o ponto que eu quero destacar é outro. Há alguns dias eu descobri um blog ótimo sobre moda masculina para gordos. Eu não conhecia, fiquei muito apaixonada. E não é que ele reclama da mesma coisa, discorrendo sobre uma coleção da 284 para a C&A! Dessa falsa inclusão de todos, da suposta moda democrática. Contudo, a reclamação dele não é de tamanho, é de variedade, de qualidade, haviam poucas peças, mas elas existiam.
    Patriarcal, excludente, ilusória e aética. Abusando e usando de nossa falta de atenção e de nosso rico dinheirinho.
    Estão resignificando a expressão democracia há muito tempo, mas dessa vez ela vem com a validação de que vale tudo pela aparência e expressão maior de uma marca: "vestir gente bonita". Vamos ao boicote!
    Segue o link do texto do Caio entitulado "Moda para todos?"
    http://www.naotemmeutamanho.com/2013/03/moda-para-todos.html

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