Não assisto muito à televisão. Talvez por isso, esse texto esteja um pouco atrasado. Ontem, em um dos raros momentos em que zapeava pelos canais, assisti a uma propaganda que me deixou chocada. Fui obrigada a me questionar: Eu realmente assisti a isso? Eu entendi direito? Infelizmente, a resposta para as duas questões foi "sim". O anúncio era um daqueles comerciais aparentemente nonsense de perfume. Eu nem estava prestando muita atenção. Filmado em preto e branco, com uma modelo bastante alta e magra fazendo carão, vestida em uma roupa preta esvoaçante. Cabelos e roupas ao vento. Propagandas de perfume não vendem odores, vendem estilos de vida. Ao pensar numa mulher linda com os cabelos e as roupas ao vento, dançando suavemente, eu imagino uma mulher livre. A cor da roupa dela, preta, traz a idéia do mistério, da sedução. Até então, tranquilo. Propaganda de perfume é isso mesmo. O problema veio no fim, quando é revelado o nome do perfume: Dahlia Noir. Com o perdão da piada ruim, isso cheira fortíssimo à misoginia. Antes de prosseguirmos, assistam.
Aos menos informados, o nome é uma referência a um feminicídio brutal ocorrido em Los Angeles nos anos 40 e até hoje sem solução. A vítima foi uma moça chamada Elizabeth Short e o caso ficou conhecido como Dália Negra. Quando eu digo que foi um assassinato brutal, eu não estou brincando, galera. A moça foi dividida ao meio, as pernas e o torso foram completamente separadas, o assassino fez cortes em seu rosto que iam dos cantos da boca às orelhas, num sorriso macabro. Especula-se que ela tenha sido torturada. É importante ressaltar que esse é um daqueles casos extremamente famosos. Há livros, há filme dirigido por Brian de Palma, há documentários. Não estamos falando de um feminicídio anônimo, mas de algo que está de alguma maneira na memória das pessoas (na minha, inclusive, que nem sou americana). Até mesmo o RPM tem uma música chamada Dália Negra, que conta a história do assassinato de uma prostituta (eles usam o termo "vadia". Uma pequena gota da misoginia do rock nacional, mas esse assunto fica para outro dia).
O motivo pelo qual o caso é conhecido é o machismo da sociedade. Elizabeth foi uma mulher incomum para a sua época. Ela perdeu o noivo na guerra e resolveu sair da casa dos pais mesmo sendo solteira. Era muito bonita, Vivia sozinha, frequentava bares e aspirava à uma carreira no cinema. O termo machista para definí-la é Femme fatale. O assassinato dela foi alardeado como aviso às moças jovens, para que tivessem uma vida de recato. Culpar a vítima, como se pode notar, é prática antiga. Lamento que ainda precisemos levantar a bandeira de que a vítima não tem culpa.
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| Propaganda misógina |
Não vou colocar aqui fotos do corpo mutilado de Elizabeth Short, mas elas podem ser facilmente encontradas no google. Se você resolver dar uma comparada no corpo e na roupa da modelo, principalmente na mídia impressa onde o figurino está mais evidente, vai encontrar semelhanças também. A roupa possui algumas faixas passando de forma bem marcada pelo seu corpo, e uma espécie de véu de tule. Fica evidente a intenção de fazer uma referência ao mutilamento de Elizabeth. Uma das faixas parece demarcar exatamente o corte abrupto na cintura, é de um mau gosto inexplicável. Tudo muito absurdo e nojento. Não há chance de ser uma coincidência. Dahlia Noir é uma referência direta ao feminicídio de Elizabeth Short.
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| Modelo da Rodarte e produto que imita sangue |
Estou até agora tentando entender essa glamurização do feminicídio que é tão recorrente na moda. Há algum tempo atrás, talvez no primeiro momento em que me dei conta do flerte entre moda e misoginia, eu fiquei igualmente pasma diante do desfile de uma coleção de maquiagem da Rodarte, para a MAC. Foi horrível. O desfile trazia modelos sorumbáticas, com grandes olheiras, de aspecto quase fantasmagórico. Aquilo não era apenas um tanto soturno, era macabro mesmo. Entretanto, o pior veio novamente no nome dos produtos: Border Town, Factory e Juárez, Ghost Town, Sleepless, Quinceañera, Del Norte. TUDO está ligado à Cidade de Juárez.
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| Protesto em memória das vítimas de feminicídio realizado pela artista mexicana Elina Chauvet (foto) |
Cidade de Juárez é lembrada em todo o mundo por ser símbolo da violência machista. De 1993 à 2012, ou seja, em 20 anos, foram mais de 700 mulheres mortas. 700 mulheres torturadas, violentadas e por fim, assassinadas em uma única cidade. As vítimas em geral são jovens mulheres, entre 15 e 25 anos, que abandonaram seus estudos para trabalhar nas fábricas da cidade. É um verdadeiro massacre. Um drama social impensável, uma barbárie. O México é constantemente condenado por cortes internacionais de Direitos Humanos. Como alguém pode cogitar usar essa referência para criar maquiagem? Alguns dirão que as irmãs Mulleavy, fundadoras da Rodarte, estavam tocadas pelo assunto e queriam dar visibilidade ao tema. Certo, eu entendo que as criações artísticas por vezes são denunciativas e que há um espaço para a crítica que deve ser ocupado, inclusive na moda. Porém, quando precisaram se explicar perante à sociedade mexicana e diversas organizações de direitos humanos, elas afirmaram que queriam apenas “celebrar a beleza da paisagem e das pessoas”. Meus caros, celebração da beleza de mulheres mortas e/ou vulneráveis à violência não é crítica. Não há celebração quando estamos falando de um assunto que é uma ferida aberta no México e no mundo inteiro.
Esses dois casos não são isolados. A moda/a indústria de cosméticos é cheia de imagens de mulheres mortas, violentadas, agredidas. Há uma glamurização da violência contra a mulher que não questiona nada é apenas muito pertubadora. Um outro exemplo é a "Agent Provocateur", uma empresa que produz lingerie e que é famosa por lançar campanhas polêmicas e comumente proibidas por serem degradantes para as mulheres. Vejam:
Diante desse panorama, quando oferecem para mulheres produtos que de alguma maneira glamurizam o feminicídio, estão passando adiante essa cultura misógina. Estão incentivando-a. É óbvio que alguém que assiste à propaganda da Dahlia Noir não vai sair por aí matando mulheres, mas é igualmente óbvio que o somatório dessas imagens que se repetem em campanhas publicitárias formam em nós um nível de misoginia. Afinal, propagandas são feitas para nos convencer de algo, certo? para que sejamos convencidos a consumir um produto. As empresas gastam milhões em propagandas por um motivo: elas funcionam. Compramos suas motivações, compramos seus produtos. Quando nos acostumamos a observar mulheres agredidas, mortas, violentadas, ainda que vestidas nas mais lindas lingeries, ainda que usando o perfume mais caro, estamos naturalizando, lenta e silenciosamente, a violência sistemática contra a mulher.
P.S.: Um texto excelente sobre a coleção Rodarte para MAC, você pode ver no saudoso blog "De Chanel na Laje"
UPDATE: leia também a parte 2 desse texto aqui.




Essa banalização e glamourização da violência contra a mulher me parece, junto com diversos outras simbologias patriarcais, mais uma reafirmação de que o sofrimento é "dignificante" para a mulher.
ResponderExcluirQuão horrível é uma sociedade que coloca a violência como se fosse bonito, tenta vender algo fazendo referência a mutilamentos?
Oliviero Toscani, aquele das campanha da Benetton da década de 90, perguntado em uma conferência em Paris/92 se achava que o papel de uma empresa privada seja o de responsabilizar-se pela moral e a consciência social. "Porque não?" Ele responde. "Por que uma grande empresa estaria acima da confusão, fora do mundo?"¹
ResponderExcluirNão diria que trabalhar nesse ínterim seja sempre ruim, muito pelo contrário. Algumas peças do Oliviero são geniais e serviram não só pra vender, sua função final, mas também ajudou muito a colocar no mapa pautas controversas como AIDS, racismo, homossexualidade e violência. As agências que operam com falta de bom-senso e bom-gosto são campeãs em arrebentar a fina linha entre a transgressão e a agressão.
Para comparar, até dentro da bonita Benetton Food for Life há a exploração da imagem da amputação, mas em um contexto é muito diferente. Tirem suas conclusões em:
http://www.benetton.com/food/press/downloadimg/life/index.html
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¹TOSCANI, Oliviero. A Publicidade é um Cadáver que nos Sorri. Rio de Janeiro Ediouro, 2003, pág.68.
Me lembro bem dessas peças que o Rodrigo mencionou. Eu assinava uma revista de adolescentes alienadas e tudo que eu queria ver, ainda sonhando com o curso de publicidade, eram as fotos da campanha da Benetton. Ele tinha (tem?) uma escola para jovens publicitários que era o meu sonho. Imaginei que a onda de Oliviero seria seguida por muitos e que em alguns anos a publicidade se transformaria. Eu já fui tão mais sonhadora.
ResponderExcluirUma outra interpretação:
ResponderExcluirNão poderia ser apenas uma referência/homenagem ao espiríto libertário da Elizabeth?
*sendo advogada do diabo
Eu pensei o mesmo.
ExcluirLeiam a parte 2: http://maiordigressao.blogspot.com.br/2013/05/givenchy-o-cheiro-da-morte-parte-2.html
ExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirBom texto.
ResponderExcluirGizelli, li seu texto e fiquei também incomodada com as coisas sobre as quais vc escreveu. Depois, conversando com uma pessoa, ela se posicionou de uma maneira completamente diferente do que está sendo dito no post e eu gostaria de expor estes pontos pra você saber o que vc acha. Alguns fatores:
ResponderExcluir1) A mulher da propaganda não aparece sensualizando, ela não é sensual, ela é magra e séria. Nos momentos em que ela aparece semi-nua, sua face demonstra dor e incômodo.
2) Há evidências de cortes no corpo dela tanto em relação às faixas que vc cita como em relação à posição dela na mesa. A Givenchy fez questão de demarcar as partes específicas do corpo da Dahlia Negra que foram mutiladas, como vc mesmo ressalta.
O caso do assassinato de Elizabeth Short nunca foi solucionado, ou seja, uma ferida aberta. A Givenchy, com sua propaganda, resgata essa história, mas por quê?
O feminicídio é uma realidade e temos de lutar contra ela. A gente pode olhar a publicidade com os olhos do mal que nunca vão achar que ela tem um sentido político. No entanto, é possível que esse resgate da história queira mostrar exatamente isso: quantos feminicídios ainda vão ocorrer?
Elizabeth Short foi uma mulher que desafiou seu tempo, uma mulher forte e essa é a imagem que a propaganda passa. De uma mulher forte que sofreu.
O fato disso ser apropriado por um sistema que visa o consumo por si só já incomoda. Assim é a indústria cultural, se apropria de tudo a fim de vender seus produtos. Mas nós vira e mexe não valorizamos campanhas que valorizem a mulher ou outras minorias que quase nunca tem destaque mesmo que as campanhas sejam feitas para vender? (Lembra da campanha da Microsoft que coloca duas mulheres casando? Então, foi bem legal, não foi?)
Enfim, acho que dá pra gente fazer outra associação em relação a essa propaganda da Givenchy. Não em relação a todas as campanhas citadas por vc no post que são realmente nojentas, mas em relação a essa. O que acha?
A resposta é tão longa que precisarei escrever outro texto, imagino que eu o escreverei amanhã. Entretanto, já adianto que não, não concordo com esse ponto de vista.
ExcluirNão acredito nisso, em especial no caso Dália Negra que é extremamente difundido na sociedade americana. Só para dar dois exemplos: Há um drink chamado Dália Negra e uma banda de Death Metal chamada "The Black Dahlia Murder". O que eu quero dizer é que é um caso que desperta fascínio nas pessoas por dois motivos: 1 - É um caso não resolvido, e 2- Ela era uma jovem moça muito bonita e que teve sua vida devassada após a sua morte. É icônico. Por isso mesmo, vende.
Li entrevistas do Ricardo Tisci para a Vogue que ele deixa CLARO que está interessado no que ele chama de "paixão" que levou alguém a cometer o crime, não em criticar nada ou chamar atenção para o drama do feminicídio. E ele usa as palavras "sedutora e fatal" para descrever a personagem que aparece na propaganda (e que é uma representação da vítima). Ou seja, é sim uma glamurização estapafúrdia e sem sentido de um crime brutal e chocante.
"A mulher da propaganda não aparece sensualizando, ela não é sensual, ela é magra e séria. Nos momentos em que ela aparece semi-nua, sua face demonstra dor e incômodo."
ExcluirNossa, ela sensualiza a propaganda inteira. Principalmente quando ela fica deitada numa base. E eu não notei esse olhar de dor, o olhar dela é blasé.
caracas eu não pq mas na minha cabeça comprar perfume, dar dinheiro pra marca dá sentido politico algum. a propaganda so é misogina e morbida mesmo.
Excluirpassando mal com tudo.
ResponderExcluirEu tenho uma teoria empírica (e secreta) de que os homens homossexuais que são misóginos e trabalham com moda, criam moda para extravasar esse ódio que sentem pelas mulheres e por isso criam esse padrão nada saudável de beleza feminina. As modelos são feias, magras, doentes e suas roupas para mim, não são belas e sim estranhas. O sacrifício do salto, a tensão da maquiagem, os demais cosméticos, os padrões de perfeição/aceitação pra mim são venenos que tornam mulheres infelizes e rejeitadas.
ResponderExcluirAos que dizem que moda é arte, eu digo que não vejo beleza ali.
Vejo a moda como conceitos estúpidos para gerar consumo e desviar o foco das questões humanitárias >:
Oi, Flávia, tudo bem? Eu fiquei um pouco incomodada com a sua teoria, porque não vejo a relação entre homossexualidade e misoginia. E também achei que ficou implícito no comentário que quem é homem e trabalha com moda é homossexual (me corrija se não for isso que você quis dizer, tá bom?). No mais, não concordo com a associação magreza-doença-feiúra(assim como não concordo com a associação obesidade-doença-feiúra), embora veja sim um problema enorme no estímulo e glorificação da magreza como padrão. :)
ExcluirOi Gizelli, obrigada pela resposta! Fiquei surpresa quando fui mostrar seu texto a uma amiga e vi que tinha me visto:)
ExcluirA relação entre a homossexualidade e misoginia teve início na Grécia antiga, onde a homossexualidade masculina era incentivada (inclusive a pedofilia) enquanto as mulheres (esposas, filhas e escravas) sequer podiam habitar as casas, e viviam em um subterrâneo abaixo da casa chamado gineceu... Nossa sociedade ocidental sofreu influência desses gregos de 400 a.C e também dos Romanos, que não eram mais feministas que eles... Hoje observo tal atitude nos assuntos relacionados ao cristianismo e à moda.
Isso porque na Idade Média os cristão católicos que não queriam se casar com as mulheres tornavam-se padres, pois ficar solteiro não era uma opção, ao contrário, era pecado, desobediência e vergonha para a família. Até esses dias, a mulheres não casadas eram chamadas “beatas” e vistas como rejeitadas “ a que nenhum homem quis”. E no medievo europeu, escapar da vergonha era viver com outras mulheres em um convento: casadas com Jesus. Na História, temos teorias que apontam a Igreja como a maior e mais antiga instituição homossexual da História. Já percebeu que se trata de uma religião misógina?
Bom, para isso eu tenho fontes. Mas, para a relação com a moda, não. O seu texto foi o mais próximo que vi... principalmente quando você falou das mulheres cadáver, devido à maquiagem...
Eu entendo isso como uma linguagem que nos mostra “feias” e não “belas”. Isso é minha opinião. Afinal, belo e feio são adjetivos,juízo de valor e logo, relativos. Não quis dizer que as vítimas dessas doenças (anorexia, bulimia e obesidade) são feias, longe disso. A intenção era dizer que o que “eles” acham bonito de ser ver é na verdade uma doença, ou seja, a anorexia (veja isso: http://conversadebeleza.wordpress.com/2013/01/23/ideais-de-beleza-as-mulheres-pirulito/ )A crítica não é quanto a magreza em si, mas os efeitos destrutivos da anorexia na pele, no cabelo, nos músculos, olhos, bochechas etc que culmina na morte de mulheres por desnutrição, infecção generalizada etc.
Bom, estou me estendendo demais, vou parar por aqui deixando alguns links que associam alguns dos homens homossexuais (e isso não significa que são todos!, nem que a moda é atividade para homossex) que trabalham com moda e a ditadura da anorexia:
http://elle.abril.com.br/materia/a-polemica-sobre-a-magreza-excessiva-das-modelos-540820?pw=2
http://champagnedascinco.wordpress.com/tag/marc-jacobs/
http://entretenimento.r7.com/moda-e-beleza/noticias/todas-as-mulheres-querem-ser-magras-afirma-estilista-20100518.html
E tem outros até mais claros que estes, infelizmente não tenho mais tempo para procurar, então te mando esse último que sintetiza a ideia. Trata-se de uma carta da diretora da Vogue para os estilistas “tops” mandarem peças maiores que 34 (tamanho infantil):
http://edicoespqp.blogs.sapo.pt/72041.html
Repito, são devaneios, para provar eu deveria estudar sociologia...
nossa, essa propaganda da agent provocateur é errada de tantas maneiras diferentes!
ResponderExcluirEu fiquei gelada com essa propaganda da Agent Provocateur. Me considero uma mulher forte... Mas o coração disparou e me senti extremamente mal. São imagens que não vão sair fácil da minha cabeça... É tão errada, tão feia, tão nojenta... Sem palavras...
ResponderExcluirNossa, leigamente falando, escolho o perfume pelo cheiro e não pela história. É como uma obra de arte, se você não souber o significado, você quem dará o significado. Quando ganhei uma amostra, senti um cheiro diferente, um cheiro de quem precisa de cuidado, de mulher meiga e sensível, totalmente diferente do que eu demonstro, uma mulher independente, mandona e auto-suficiente!
ResponderExcluirIsso me remeteu diretamente a esse absurdo que vinculou à publicidade e moda um caso lastimável ocorrido na Índia (e infelizmente, recorrente); o ensaio fotográfico de Raj Shetye remete ao estupro coletivo sofrido por uma jovem de 23 anos, que não resistiu e faleceu dias depois. Mau gosto ou má intenção, nem sei o que define isso.
ResponderExcluirhttp://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2014-08-06/ensaio-fotografico-retrata-estupro-coletivo-e-provoca-indignacao-na-india.html