sábado, 2 de março de 2013

O caso Quvenzhané Wallis: Racismo naturalizado



Essa semana li uma crítica sobre como nós, feministas brancas, nos omitimos de falar sobre o ataque que sofreu a atriz Quvenzhané Wallis. Embora o assunto tenha sim me tocado, que eu tenha tuitado sobre isso, que eu não tenha escrito nada por achar que não tinha propriedade sobre o tema, a crítica me atinge. Escrever em um blog é algo permanente. O twitter, por mais que alcance muita gente, é efêmero e não serve como base de informação. Por isso, resolvi escrever esse texto mesmo que não me sinta tão preparada por não sofrer na pele a opressão da qual vou falar. E farei isso porque essa feminista que não intersecciona lutas não é a feminista que quero ser. Vamos ao mais importante: falar sobre racismo.


Tão fofa :3
Quvenzhané Wallis é uma garotinha que entrou para história do Oscar pela indicação como melhor atriz aos nove anos de idade. Seria uma bela história, mas como ela é negra, essa história foi manchada pela misoginia e pelo racismo. 

O preconceito precede o Oscar. Quando da indicação da pequena Quvenzhané ao Oscar por sua atuação em Beasts of the southern wild (aqui conhecido como "Indomável Sonhadora"), pareceu impossível para a imprensa americana pronunciar o nome dela. Entendo que é um nome difícil, mas também não é, por exemplo, "Schwarzenegger" ou "Wasikowska", "Wachowski" e outros tantos famosos em Hollywood? A diferença está na cor da pele. Eu acredito que o grande desinteresse da imprensa em aprender a pronúncia é um problema racial em que o nome, aquilo que nos dá individualidade, se torna menos importante. E é necessário falar disso porque é exatamente a desumanização da pessoa negra que torna possível a violência e o desrespeito com a qual a sociedade tratou  Quvenzhané na noite do Oscar.

A premiação, marcada pelas piadas misóginas, foi especialmente cruel com Quvenzhané Wallis. No palco da premiação, o apresentador Setch Macfarlane resolveu fazer uma piadinha sobre a idade dela. Compreensível, já que ela é a mais jovem indicada ao prêmio. O problema é que a piada não parou por aí, veja por si mesmo:

"Então, deixe-me falar para aqueles de vocês que foram indicados para um prêmio... então, você foi indicado para um Oscar, algo que uma criança de nove anos pode fazer! Ela é adorável, Quvenzhane. Ela falou para mim nos bastidores: "Eu realmente espero não perder para aquela velhinha, a Jennifer Lawrence". Para dar uma idéia do quão jovem ela é, faltam 16 anos para ela se tornar muito velha para o Clooney."

Ao apresentar uma criança de nove anos de idade, presente no evento, trajando uma bolsinha de cachorrinho, o apresentador fez uma piada que envolve sexualização, e, portanto pedofilia. Sim, pode parecer que a piada era contra o George Clooney, mas na verdade a maior vítima foi Quvenzhané. E isso foi dito para uma platéia mundial. Todo mundo viu e muita gente não observou esse aspecto da piadinha, sabe por quê? Porque ela é negra. A naturalização das ofensas contra as pessoas negras é um fato. E isso ficará claro com o ocorrido no twitter na mesma noite, já que Macfarlane não estava sozinho contra Quvenzhané, ela também foi alvo de uma piada do canal "The Onion". E aqui eu preciso ser bem enfática ao dizer que uma piada não isenta ninguém de ser preconceituoso, babaca e/ou criminoso. A injúria foi tão absurda que arrisco dizer que é passível de processo. O tweet foi:

"Todo mundo parece ter medo de dizer isso, mas a Wallis é uma espécie de cunt".

Cunt, em tradução literal é uma adjetivo chulo para vagina. E é usado como xingamento, portanto um termo misógino. Digamos que a significação varia de contexto, mas normalmente se aproxima muito do Bitch (puta, vadia, piranha), só que com um grau de misoginia ainda maior. Então, vamos voltar um pouco no tempo... Quando Chlöe Moretz, uma criança branca, fez o papel de Hit-girl no filme Kick Ass, ela usou o termo "cunt". E as críticas surgiram de todos os lugares, afirmando não ser responsável expor uma criança à esse tipo de vocabulário. Porém, quando uma criança negra é agredida pelo mesmo termo, a reação não é imediata, as pessoas dizem que é apenas uma piada. A diferença de tratamento é evidente: Muitas pessoas que criticaram a atitude do The Onion sofreram retaliação por parte de comediantes, usuários do twitter, e pasme, até mesmo feministas (brancas). 

O caso Quvenzhané Wallis evidencia a hipersexualização da mulher/menina negra, a coisificação, a objetificação da pessoa negra, o desrespeito da mídia com as mulheres negras que alcançam o sucesso em suas carreiras, e também nos mostra como as crianças negras são expostas à violência psicológica e verbal e tudo isso de forma naturalizada.

Mais informações sobre o assunto podem ser encontradas nesse link.

11 comentários:

  1. Ótimo texto.

    A Jennifer Lawrence (que não mereceu o Oscar, me desculpe; ela é uma ótima atriz, ótima mesmo, mas a Wallis foi MUITO superior em atuação nesse caso) também fez graça com o nome dela.

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  2. Puxa vida, como vocês gostam de ver pelo em ovo. Eu ri muito desse trecho:

    "Ao apresentar uma criança de nove anos de idade, presente no evento, trajando uma bolsinha de cachorrinho, o apresentador fez uma piada que envolve sexualização, e, portanto pedofilia. [...] Todo mundo viu e muita gente não observou esse aspecto da piadinha, sabe por quê? Porque ela é negra."

    Quer dizer, conseguiram incluir pedofilia, machismo, racismo

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    1. Bastante perspicaz. SIM, É ISSO MESMO :)

      E eu sou uma pessoa só, esse é um blog pessoal.

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    2. Vocês, quem, cara pálida?
      Acho que a Gizelli não é porta voz de (insira aqui o grupo que o seu termo "vocês" representa). Quem ~conseguiram~, incluir pedofilia, machismo e racismo no comentário nojento sobre Quvenzhané?

      Quem incluiu racismo, machismo e pedofilia foi quem comentou, não quem ouviu.

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    3. Pois é, eu represento quem além de mim? uai. Não sabia que tinha sido elegida a porta-voz de (o que mesmo?). rs

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  3. Eu vejo copos d'água e tempestades dentro deles.

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    1. Eu vejo gente privilegiada. All the time.

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  4. Ótimo texto. Compartilhado. Concordo que não devemos fazer vista grossa e deixar passar em branco (huuum...) atitudes racistas e reprováveis como esta. Um nome é uma coisa tão pessoal... tão sua, que não deveria ser nunca zuado, independente de qual seja ele. Alguns até fazem piada por exemplo com nomes de filhos de famosos, mas a maioria delas não são desse calibre ( dessa baixeza)

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  5. "Foi só uma piada" é o bordão favorito do privilegiado.
    Ótimo texto.

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  6. "Foi só uma piada"
    =
    "copos d'água e tempestades dentro deles"
    =
    "ver pelo em ovo"


    Gizelli, permita-me te parafrasear:
    I see stupid people. All the time.

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  7. Sobre a apresentação da última edição do "Oscar", seguem trechos de post da Lola - que é uma cinéfila e acompanha todas as edições:

    http://www.escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2013/02/oscar-bolao-desastres.html

    "(...) Seth acirrou a competição pro pior apresentador da história do Oscar. (...)
    Praticamente todas as piadas do Seth falharam. Foi realmente embaraçoso. Além de contar com a ajuda do eterno Capitão Kirk num telão, que veio do futuro lhe dizer que Seth ficaria conhecido como o pior apresentador ever (quando o capitão apareceu, a previsão já não era mais necessária -- a gente já sabia), o criador de Ted e Family Guy fez um longo e doloroso esquete com a Sally Field e um monte de piadinha preconceituosa.

    Contra latinos ("não entendemos nada do que eles dizem, mas não importa, porque eles são muito atraentes"), sobre violência doméstica ("Django é a história de um homem lutando para trazer de volta sua mulher, que tem sido sujeitada a muita violência, ou, como Chris Brown e Rihanna dizem, um date movie"), sobre mulheres stalkers ("Jessica Chastain em A Hora Mais Escura faz uma mulher que gasta doze anos perseguindo Bin Laden. O filme é uma celebração da capacidade inata de toda mulher de nunca esquecer alguma coisa"). Ele também sexualizou uma menina de nove anos, Quvenzhane Wallis ("Pra dar uma ideia de como ela é jovem, ela ainda tem 16 anos pra ficar velha demais pro George Clooney").

    Essa piada aparentemente deu permissão para que outras vozes pegassem no pé da fantástica atriz mirim. O site satírico The Onion, por exemplo, a chamou de cunt (palavra vulgar pra falar de vagina, e que significa vadia, estúpida). O site deletou o tweet uma hora depois, e só pediu desculpas hoje. Isso dito de uma garota negra que usa bolsa em formato de cachorrinho...

    Mas, voltando ao Seth, o pior que ele fez foi cantar uma música chamada "Nós vimos os seus peitos", em que ele cita algumas das atrizes presentes que já ficaram sem roupa na tela. A reação do público foi mais ou menos essa: [foto]

    Esta é a Naomi Watts ao ser mencionada. Parece que essas reações são pré-gravadas (as atrizes estão com vestidos diferentes), mas o que isso quer dizer? Que o número foi mostrado, as pessoas detestaram (é só ver a cara dos outros), e, ainda assim, ele foi mantido. Pra ofender mesmo. (...)

    A que tá fazendo um facepalm é a Charlize Theron, que não ficou feliz em ser reduzida a um par de seios, ainda mais numa noite que deveria celebrar o talento das atrizes. Ah, e tem mais: como me lembrou uma leitora, quatro dos filmes citados em que os seios das atrizes aparecem são... cenas de estupro. É verdade, Seth cita Meninos Não Choram e Acusados, em que temos a sorte de ver os seios da Jodie Foster enquanto ela é violentada num bar.
    Que legal, né? Vimos seus seios! (...)"

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