quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

A linda introdução do filme Medianeras, de Gustavo Taretto

Há algum tempo assisti ao filme "Medianeras", do diretor Gustavo Taretto, e fiquei apaixonada pelo texto que introduz os dois personagens principais do filme, Martín e Mariana. É um belo discurso sobre Buenos Aires, sobre a decadência da cidade, ou como diz o Martín  "irregularidades estéticas e éticas" que delineiam, ambientam e são refletidas nos seus personagens cotidianos. Abaixo uma tradução livre.

O trecho do Martín:

"Buenos Aires cresce descontrolada e imperfeita, é uma cidade superpovoada em um país deserto, uma cidade em que se erguem milhares e milhares e milhares e milhares de edifícios sem nenhum critério. Ao lado de um muito alto, existe um muito baixo, ao lado de um racionalista, um irracional, ao lado de um de estilo francês há outro sem estilo algum. Provavelmente estas irregularidades nos refletem perfeitamente, irregularidades estéticas e éticas.

Estes edifícios que se sucedem sem nenhuma lógica demonstram uma total falta de planejamento. Exatamente igual à nossa vida, vamos vivendo sem ter a mínima idéia de como queremos ser. Vivemos como se estivéssemos de passagem por Buenos Aires. Somos os inventores da cultura do inquilino. Os edifícios são cada vez menores, para dar lugar a novos edifícios, menores ainda. Os apartamentos se dividem em ambientes, e vão desde os excepcionais 5 ambientes com varanda, sala de jogos, dependência de empregados, depósito, até a quitinete, ou caixa de sapatos.

Os edifícios, como quase todas as coisas pensadas pelo homem são feitos para nos diferenciar uns dos outros. Existe uma fachada frontal e posterior, e os pavimentos baixos e os altos. Os privilegiados são identificados com a letra A, excepcionalmente a B, quanto mais progride o alfabeto menos categoria tem o apartamento. As vistas e a luminosidade são promessas que raramente condizem com a realidade. O que se pode esperar de uma cidade que vira as costas para o seu Rio?

Estou convencido de que as separações e os divórcios, a violência familiar, o excesso de canais de cabo, a falta de comunicação, a falta de desejo, a abulia, a depressão, os suicídios, as neuroses, os ataques de pânico, a obesidade, as contraturas, a insegurança, o estresse e o sedentarismo são responsabilidade dos arquitetos e empresários da construção. Desses males, exceto o suicídio, eu padeço de todos. " 


O trecho da Mariana:

"Todos os edifícios, absolutamente todos, possuem uma face inútil, imprestável, que não é nem a fachada frontal e nem a posterior, é a “medianera”. Superfícies enormes, que nos dividem e nos lembram do passar  do tempo,  a poluição e a sujeira da cidade. As medineras mostram  nosso estado mais miserável, refletem a inconstância, as rachaduras, as soluções temporárias.  O lixo que escondemos sob o tapete, pensamos nelas excepcionalmente, quando,  violadas pelos intempéries do tempo, deixam infiltrar suas reivindicações.

As medianeras  se tornaram mais um meio publicitário, que salvo raras exceções conseguiu embelezar-lhes. Geralmente, são propagandas duvidosas de supermercados ou fast food, anúncios de loteria que prometem de muito à quase nada, etc etc etc. Apesar de atualmente nos recordar da terrível crise que nos deixou desempregados. Os condicionadores de ar são erupções irregulares das quais padecem as medianeras, graças à antiguidade dos edifícios que não comtemplaram sistemas de refrigeração adequados para uma cidade cada vez mais quente. 

Contra toda a opressão que significa viver em caixas de sapatos, existe uma saída, uma fuga, ilegal, como todas as fugas. Em clara contravenção ao código de planejamento urbano, abrem-se minúsculas, irregulares e irresponsáveis janelas que permitem que milagrosos raios de luz iluminem a escuridão em que vivemos."

5 comentários:

  1. Descobri o filme depois de vc e por causado meu filho que adora esse e outros filmes argentinos. Esse em especial e uma abrtura com um texto muito significativo. Reassisti várias vezes e escrevo dele amanhã no meu blog pessoal, o Mafuá do HPA (www.mafuadohpa.blogspot.com) de Bauru SP. Um abracito bauruense do HPA

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  2. Amei seu post! To escrevendo um tambem sobre o filme, e por isso achei teu blog! Parabens! bjo

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  3. Adorei esse post.
    Realmente o filme é muito legal,
    e traz vários dilemas da sociedade pós-moderna, fazendo com que as pessoas comecem a refletir sobre suas vidas.

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  4. Assiste ontem à noite. Ainda estou embriagada pela beleza crua...
    Um belo filme.

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  5. Não é crítica de cinema, mas é uma arquiteta que humaniza as questões de classe. Você é ótima, Giza.

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